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Aprendizados do Sertões

No meu último texto, escrevi sobre a minha expectativa para participar do Sertões. Agora, volto aqui para contar como foi a minha participação e quais foram os aprendizados desse desafio.

A troca do carro pelo UTV, de forma geral, acabou sendo boa. No UTV, o rally fica mais confortável, pois como não há parabrisas nem janelas, o que, inicialmente, achei que poderia ser um problema, se tornou um aliado. A poeira não incomodou em nenhuma situação normal, pois o capacete fechado era o suficiente para não deixar a poeira chegar aos olhos e ajudava muito como filtro para a respiração. Além do mais, a poeira só existia quando estávamos andando atrás de outro veículo – assim que o ultrapassávamos ou nos distanciávamos, a poeira acabava e o vento “limpava” e refrescava o bólido. Outra preocupação era em relação à planilha, mas foi fácil de achar a melhor maneira de segurá-la e protegê-la da água nas travessias de rios.

Porém, sempre há um porém… Como comentei na coluna passada, não gostaria de descobrir o limite do carro da pior maneira! E, infelizmente, a partir do terceiro dia de rally começamos a encontrar esse limite… Tivemos quatro quebras seguidas, o que nos tirou da prova. Perdemos a roda dianteira, tivemos pane elétrica e quebra de motor. Foi preciso muita paciência, força de vontade, engenhosidade e parceria para conseguir sair da trilha e fazer o carro chegar ao parque de apoio nessas quebras.

Esse é o preço que se paga para desenvolver um carro. O nosso UTV é um Yamaha lançado há pouco tempo, que ainda não chegou no Brasil, então, todo o desenvolvimento do carro é feito pela equipe Yoda sem “receita pronta”. Nesse contexto, nem sempre as coisas saem como o planejado. Diferentemente dos outros UTV´s da equipe, dois Polaris que estão muito bem acertados, pois já possuem uma preparação que os deixa rápidos e confiáveis.

Henrique (meu piloto) e eu contávamos com o apoio do Tampa e do Zeler, que eram nossos mochilas, e foram de grande valia. Na primeira quebra, montamos uma verdadeira arapuca para sair da trilha e andamos por cerca de 70 quilômetros rebocados pelo UTV deles, até que uma pedra quebrou o carter deles. Estávamos a quatro quilômetros de uma localidade chamada Campo Alegre, na qual teríamos mais recursos.

Esses últimos quatro quilômetros renderam cenas dignas do MadMax. Imaginem: um UTV sem as rodas dianteiras, apoiado no parachoques traseiro de outro UTV, porém o que estava tracionando era o UTV de trás! Assim, chegamos em Campo Alegre e conseguimos um caminhão para nos levar até o ponto de abastecimento onde estava nosso apoio. Daí para frente, nosso rally se tornou uma verdadeira prova de fogo! Chegamos no apoio muito tarde e tinha muito serviço para os mecânicos que viraram a noite trabalhando nos carros.

No outro dia, uma pane elétrica nos tirou da prova! No quinto dia de provas, o motor quebrou e, no sexto, outro rolamento de roda quebrou e, novamente, tivemos que abandonar. No sexto dia, a engenhosidade que fizemos para sair da trilha foi ainda maior. Tiramos a roda dianteira direita, desmontamos parcialmente a suspensão e colocamos um tronco de árvore como esqui no lugar da roda! O Zeler e eu revezamos no contra-peso sentados atrás, em cima dos estepes. Dessa maneira, andamos por 30 quilômetros nas areias do Jalapão até chegarmos num estradão de terra, onde andamos por mais 30 quilômetros até retornamos a Mateiros. O vídeo abaixo mostra um pouco do que foi tudo isso…

E esse foi o fim do rally para nós! Uma mistura de sentimentos muito grande: tristeza, frustração e saudades da família apertando, mas, ao mesmo tempo, satisfação pelas engenhosidades funcionarem e por conseguir sair do mato. Sem dúvida nenhuma, foi uma das edições mais dura de todos os Sertões, o que de certo modo nos conforta. Porém, fomos derrotados e não sabemos quando teremos novamente a chance de, pelo menos, terminar uma edição tão dura! Ano que vem, tem mais e promete ser um grande rally para comemorar os 25 anos da competição. Sem dúvida nenhuma, quero fazer parte dessa história!

Gostou de mais essa coluna? Você já está usando o tablet para navegar? O que está achando? Manda o seu recado, comenta aí embaixo. Vamos conversando e nos encontrando por aí, seja em alguma largada, chegada, parque de apoio ou briefing, compartilhando as anotações nas planilhas!

André Munhoz

Envolvido com rally desde criança, tem o esporte no seu DNA. Navegador com mais de 12 anos de experiência, já foi campeão Catarinense de RAID na categoria graduados em 2005, da MitsubishiCup na categoria TR4R em 2008 e 2010 e vice-campeão da Mitsubishi Motorsport na categoria graduados em 2008 e da MitsubishiCup nas categorias TritonER, em 2014, e TritonRS, em 2015, além de ter disputado o Sertões em 2011 e 2013. Já foi diretor de provas e presidente do Jeep Clube São Bento e, hoje, compete como navegador em provas de rally 4×4 e cross country e atua como apurador de provas credenciado pela Totem, tendo realizado a apuração e cronometragem de provas como Transparaná, em 2015, Transcatarina, em 2014 e 2015 e Mitsubishi Motorsport Nordeste em 2015. Nesta coluna, vai abordar temas, contar histórias e dar dicas sobre a navegação de rallys.

Comentários

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  • Fernando Assis -

    Seu suspeito em falar, mas vc já é uma referência quando se fala em navegação.
    Parabéns André. E que venham mais historias.