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Troca de pneus. We can!!!

Todo mundo sabe que a função de troca de pneus é atribuída ao sexo masculino e, normalmente, cabe a nós, mulheres, o papel de desviar os carros ou ficar esperando por socorro. Desde que começamos a correr, esse problema não nos assombrava. Entretanto, a realidade do rally é outra e, para nossa felicidade, tudo sempre corria bem… Até que, em uma prova do rally “Carioca Off Road”, nossa sorte nos traiu. Esse rally é um daqueles em que você realmente aprende a pilotar e a navegar, além de ser super divertido.

Dessa prova, nossos maridos iriam participar. Flavio pilotando e Alberto navegando. Obviamente, o rally virou uma guerra do sexo. Eles tinham total convicção de que em hipótese alguma iriam perder para a nós. Saímos uma posição na frente deles. Prova super técnica, com muitos laços, balaios e velocidades acirradas, até que “pow”, batemos em um toco. Pneu furado!!! Só que estávamos em uma trilha super estreita e sem chance de parar. Vimos que o pneu estava esvaziando lentamente e continuamos até a próxima referência, dois quilômetros à frente, onde teria um neutro de quatro minutos.

Saímos do carro rapidamente para “tentar” trocar o pneu, abrimos o porta-malas e, de repente, dois competidores vieram nos perguntar se precisávamos de ajuda. SIIIMMMMM!!! Eles começaram, rapidamente, a trocar o pneu, enquanto nós tirávamos o estepe – foi quando vimos nossos maridos parados, nos observando, sem dar nenhum sinal de que iriam nos ajudar. Ficamos sabendo, depois, que eles realmente não iriam nos ajudar e estavam torcendo para não dar tempo. Para o azar deles, deu tempo! Foi uma troca estilo “pit stop”! Entramos no carro faltando 20 segundos para a largada e ainda ganhamos a prova deles.

Mesmo salvas por um triz, a certeza da nossa incapacidade de trocar pneus perdurava em nossas mentes. Até que decidimos correr o famoso rally do Cerapió, prova difícil, quatro dias percorrendo vários quilômetros, passando por lugares a ermo e com grandes chances de diversos acidentes, inclusive de furar ou rasgar os malditos pneus.

Diante dessa realidade, Flavio e Alberto resolveram nos dar uma aula para evitar que fôssemos pegas de surpresa. Marcamos uma noite na garagem, e eles se sentaram confortavelmente para apreciar o show que daríamos. E foi mesmo. Nós não levávamos o menor jeito. Os pneus tipo “adventure” pesam mais do que os de asfalto, mal tínhamos força para levantá-los, além do esforço sobrenatural para retirar as porcas da roda. Subíamos juntas na chave de roda e nada… Um desastre só.

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Depois de algum tempo tentando, eles desistiram e nos desejaram boa sorte! Ficamos tensas, mas acreditávamos que nada nos aconteceria. E bola para frente. Partiu Ceará!!! Começamos bem, estávamos já no último dia da corrida, em segundo lugar no geral, batalhando pela liderança, até que um tronco caído na estrada nos trouxe o pesadelo que nos assombrava. Pancada grande! Pneu rasgado!!!

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Conseguimos rodar 4 km até o próximo neutro. Quando paramos já não tinha pneu e a roda estava toda destruída!!! Saímos do carro desesperadas, corre dali, corre daqui, parecíamos dois perus em véspera de Natal.

Vi uma moça na janela e perguntei se tinha algum homem para nos ajudar, e ela, naquele sotaque cantado, nos disse: “Tem não… os ‘homi’ estão trabalhando na cidade.” Desespero geral! Ninguém parava. Um homem apareceu de bicicleta e a Vilma perguntou se ele podia ajudar. Ele respondeu: “’Possu’ não…Tenho problema na coluna.” Só ouvi a Vilma respondendo: “Vaza!!!”

A situação estava tensa… Depois de ficarmos tentando lembrar como se montava um macaco, pois parecíamos duas “mulheres das cavernas” fazendo fogo pela primeira vez, conseguimos, bravamente, posicioná-lo corretamente. Entretanto, aquele instrumento “extraterrestre“ não tinha altura para levantar o carro. Além de termos trocado amortecedores e molas de corrida, os pneus eram grandes demais para que o macaco original do carro conseguisse levantá-lo.

Mas um uga uga… começamos a procurar madeiras para aumentar o apoio do macaco. E nada dava jeito. Só existia uma chance de sairmos dali, era o Flavio e o Lobsang Max (seu navegador) nos ajudarem, pois eles eram o penúltimo carro da corrida. Vilma ficou de olho na estrada, e eu continuei a peregrinação pela busca da madeira – foi quando vi uma das cenas mais inesquecíveis da minha vida.

Eu vi… Ninguém me contou!!! O carro do Flavio e do Lobs passou, e Vilma foi correndo e gritando atrás!!! Nunca vi a Vilma correr tanto, fiquei até sem reação. E o pior é que eles não pararam!!! ÓDIOOOOOO!!!!. Até hoje eles juram que não nos viram… Risos!!!
Todos nos viram, menos eles. Tem até um áudio que o Peternelli fez para “simular” este episodio: “Corre Flavio!!! Não para… Esta etapa vamos ganhar delas!”. Para nossa sorte, outro concorrente parou e nos ajudou. Voltamos à toda para retornar para a prova. Infelizmente, perdemos esta etapa, mas ficamos em terceiro no geral.

Depois disso, aprendemos a trocar pneus e nunca mais dependemos de ninguém para nos ajudar. Na hora, desce um espírito guerreiro que nos permite fazer coisas difíceis e vemos que nós, mulheres, podemos e devemos ficar o máximo independentes das atribuições ditas masculinas.

We can!!!

Paula Breves e Vilma Rafael

Vilma é dentista, casada e mãe de uma filha de dez anos. Paula é veterinária de animais selvagens, casada e mãe de duas filhas – uma de 12 e outra de 17 anos. As duas são do Rio de Janeiro (RJ) e amigas de longa data. A parceria no rally surgiu em 2008 e, hoje, as duas competem na categoria Graduado da Mitsubishi Motorsports Sudeste e participam de diversas outras provas – como Cerapió, Estrada Real, Transbahia e Transcatarina. Nesta coluna, as parceiras querem incentivar outras mulheres a se identificarem e participarem do universo 4×4. “Somos profissionais, mães e esposas que, com pouco tempo livre, conseguem se dedicar a um esporte focado no universo masculino”, conta Paula. “Gostamos de aventuras, adrenalina e desafios. Somos intrépidas!!!”, finaliza Vilma.

Comentários

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  • Bruno Mantovano -

    Mulheres guerreiras e cheias de disposição! Acompanho o desempenho das atletas a muito tempo e me orgulho de ter me tornado amigo das “mulheres do rally”!

  • Carina -

    Amei! Empoderamento feminino!

  • Flavio -

    Oi eu sou o Flávio marido da fera! No primeiro evento não tinhamos esperança de ganha-las pois elas ja corriam juntas a 7 anos e o beto so tinha navegado 2 provas e estava correndo de evo pela primeira vez, e no Cerapió es feras em vez de ficarem a esquerda do “tê” ficaram a direita e como estavamos recuperando tempo entramos voado e realmente não vimos pois se tivessemos visto com certeza iamos dar uma sacaneada nas ” suzies” kkkk