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A cronometragem…

Nos primórdios do rally de regularidade, os competidores ajustavam seus relógios pela hora fornecida pelo organizador, e a organização dependia de pessoas, também com cronômetros, para ficarem escondidas nos trechos marcando o tempo de passagem. Era um processo manual, feito com muita paixão e sacrifício, e temos que agradecer a estes entusiastas que nos ajudaram muito.

Porém o processo era sujeito a inúmeras falhas e imprecisões. O grupo se reunia para disparar seus cronômetros exatamente às 08h00, por exemplo, e o responsável fazia a contagem regressiva: 5, 4, 3, 2 1, já! E, aí, ouviam-se diversos “bips”, nem sempre ao mesmo tempo. Fora que alguns não tinham disparado e, por isso, novas tentativas eram feitas. Além da imprecisão natural de cronômetros de marcas e baterias diferentes e cansadas, havia o tempo de acionamento manual de cada cronometrista. As anotações eram feitas numa folha, e o PC (cronometrista) fazia os cálculos dos pontos perdidos por cada competidor. Sim, eu presenciei isto!

Evoluções ocorreram, como a sincronização com a rádio Relógio do Rio de Janeiro, que emitia “bip” de sincronismo de hora. Passou-se a utilizar gravador para registrar a passagem do carro e a rádio ao fundo. Dúvidas eram sanadas com recursos onde os comissários ouviam as fitas e confirmavam os tempos. Na única vez que eu entrei com recurso, ouvi a fita e ganhei a prova depois de comprovar que eu não tinha perdido 8 pontos, mas 5 (centésimos de minuto = 0,6 segundos).

Felizmente, tivemos grandes evoluções como a utilização de HPs, com as quais conseguíamos ajustar o tempo a qualquer momento e descarregar os dados digitados. Infelizmente, a precisão variava conforme a bateria de cada calculadora e, entre 4 e 8 horas, abriam uns 2 segundos. Finalmente, surgiram as máquinas de PC da Totem, quando todas eram ajustadas com o mesmo botão, dando inicio à era da precisão. Para eliminar o “delay” do acionamento, surgiu a fotocélula.

Tínhamos 20 fotocélulas com baterias que tinham que ser carregadas e, depois, tudo tinha que ser transportado até o local do PC. No PC, elas precisavam ser alinhadas. De vez em quando, tínhamos PCs cancelados devido a mudanças de posição da fotocélula, a desalinhamentos, a bateria desconectadas e a diversos outros problemas. Com essas 20 fotocélulas, tínhamos que fazer laços para ter a maior quantidade possível de PCs. Infelizmente, estávamos sujeitos ao atropelamento intencional de fotocélulas feito por alguns competidores.

Como o progresso nunca para, começamos a utilizar o GPS. Tivemos alguns precursores como o Waldson, o Giovane e  o Alfredo, de Fortaleza, e o Adilson da Maré Náutica. A Totem resolveu investir na solução e criou seu próprio coletor de dados de GPS chamado RASTRO. Foram anos testando e aperfeiçoando equipamentos e técnicas para conquistar a confiança dos organizadores e competidores. Muitos não se adaptaram à nova realidade, mas ela se tornou irreversível. Alguns não aceitaram a ideia de serem cronometrados 100% do tempo, de não verem as pessoas, as fotocélulas, de não saberem os locais dos PCs – e até de não poderem mais atropelarem os PCs! Kkkkkkk. Esta foi a melhor parte.

A Totem chegou a colocar 70 RASTROS no mesmo veículo e ficou contornando a quadra, passando pela fotocélula, registrando todos os tempos. Fez análise dos dados e conseguiu determinar até quanto tempo o sinal leva para ser processado. Por isso, seu sistema é mais preciso e desenvolvido. Seu coletor tem como prioridade o sincronismo do tempo e não o envio de mensagem para a tela ou o atendimento, a interrupção e o armazenamento. Estas atividades são feitas entre os intervalos de segundos. Hoje, até eu, que colaborei com os testes e desenvolvimento, fico impressionado com a precisão atingida tanto pelo sistema de cronometragem como pelos competidores que, hoje em dia, conseguem zerar vários PCs seguidos no centésimo de segundo.

Com o advento da cronometragem por coletor de dados (GPS/RASTRO), tornou-se viável a realização de provas de regularidade longas, como o Sertões. Todas as provas, atualmente, são cronometradas desta forma, eliminando os erros manuais e registrando todos os erros dos competidores. Isso eliminou as reclamações infundadas dos competidores, e o tracking serve até para lembrar os que se esqueceram do erro. Possíveis interferências no sinal de GPS são raras, mas podem ocorrer e, por isso, eu recomendo não ligar o aparelho de CD/DVD e nem utilizar carregadores USB não originais.

Com isso, temos um sistema que nos permite ter confiabilidade, credibilidade e transparência, medindo o competidor até 200 vezes em cada prova.

Abraços e até breve!

Lourival Roldan

Lourival Roldan é um nome que dispensa apresentações no cenário do rally do país. Aos 57 anos, acumula 32 como piloto e navegador e 22 como organizador de competições. Atual diretor de provas da Mitsubishi Motorsports, já participou 15 vezes do Rally dos Sertões e nove do Dakar. Nesta coluna, Lourival vai compartilhar histórias de sua trajetória no esporte.

Comentários

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  • Heitor -

    Também sou do tempo da máquina Facit no colo do navegador com vários cronometros e girando a alavanca a cada minuto e conferindo no odômetro.