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27/04/2016 - Atualizado em 13/03/2017 às 21:12.
Entrevista

“Falta ser campeão no Dakar”

Lourival Roldan, navegador e diretor de provas da Mitsubishi Motorsports, é o segundo entrevistado da série "Os grandes nomes do rally brasileiro"

Lourival Roldan é um nome que dispensa apresentações no cenário do rally do país. Aos 57 anos, acumula 32 como navegador e 22 como organizador de competições. Atual diretor de provas da Mitsubishi Motorsports já participou 15 vezes do Rally dos Sertões e nove do Dakar. Confira a entrevista exclusiva que ele deu para a gente:

+Rally – A evolução da tecnologia transformou e vem transformando o rally ano após ano.Na sua opinião, o que era melhor na prática do esporte quando você começou? E o que é melhor hoje?
Lourival Roldan – Quando comecei a fazer rally a cronometragem era com cronômetros disparados manualmente por diversas pessoas e, por isso, não estavam sincronizados. Além de terem diferença de tempos entre si, os cronômetros não eram precisos e variavam conforme o tempo de bateria e qualidade.
Também tinha a precisão do cronometrista, sua atenção aos carros vindo, sua precisão em relação à posição da referência. Eles podiam mudar de lugar, disparar o cronômetro adiantado ou atrasado. A precisão era uma incógnita.
Tudo era feito por aficionados pelo esporte e temos de agradecê-los pelo esforço e dedicação. Chegava-se a utilizar gravador e rádio ligado na rádio relógio do Rio de Janeiro para ouvir o “bip” do relógio.
Com a implantação da fotocélula, passamos a ter precisão, mas também outros problemas como seu não funcionamento, o desalinhamento acidental, a mudança de lugar da fotocélula pelo PC, entre outros. Aí, estávamos limitados a 20, 25, 30 ou, no máximo, 35 PCs em uma prova de 8 h de duração.
Com a utilização dos novos equipamentos de cronometragem por GPS, como o RASTRO, perdemos um pouco da precisão absoluta, mas ficamos livres de muitos erros comuns no passado. O grande benefício foi a multiplicação dos PCs. Hoje, temos em torno de 150 a 200 PCs em uma prova e, com isso, vence o mais regular, e o organizador pode medir o competidor em todas as situações importantes da prova, Ou seja, o fator sorte deixou de existir.
Também com o tracking acabaram as reclamações infundadas dos competidores. Com essa nova tecnologia, um diretor de prova não precisa deslocar pessoas de apoio para fazer PC no meio da trilha e isto viabiliza provas longas e diminui o custo.

Considero que correr aprimora o meu lado organizador. Me tornei organizador quando percebi que as provas não tinham a mesma precisão que eu tinha como competidor.

+R – O início do rally no Brasil foi impulsionado por competições amadoras e regionais. Hoje, a prática ainda é muito descentralizada no país, apesar de termos algumas grandes competições nacionais. Você mesmo é diretor de provas da Mitsubishi Motorsports, referência no esporte nacional hoje. Como você avalia essa evolução do esporte no país? O que ainda precisa evoluir?
LR – O Rally evoluiu muito no país desde que eu comecei e, principalmente, depois que me tornei diretor de prova. Particularmente, fui o primeiro navegador a usar navegação integrada (Autoral) no Rio de Janeiro, em 1989. Depois, comecei a calcular ficha técnica no Excel e, mais tarde, passei a fazer planilha no Excel com cálculo de tempo e desenho no computador – isso por volta de 2003. Por aí a precisão da prova e dos equipamentos foi aumentando. As planilhas tinham em torno de 30 páginas com um trecho por página.
Em Joinville [na primeira etapa do Mitsibishi Motorsports de 2016], tivemos uma planilha com 120 paginas, 496 trechos e 196 PCs. Os competidores foram exigidos ao máximo. Foi a prova mais dura em termos de navegação e pilotagem que já fiz. Não dava tempo de analisar a planilha e nem de cantar todas as referências. Tenho certeza de que, em alguns momentos, os navegadores deixaram de respirar para conseguir passar a informação ao piloto ou simplesmente indicaram com a mão o caminho a seguir.
Com esta variação grande de velocidade, conseguimos fazer provas mais justas e seguras. Antigamente a velocidade era mantida em qualquer situação e, com isso, corriam-se riscos. Hoje, variamos as medias de acordo com as dificuldades e deixamos a prova sempre no limite entre a adrenalina e a segurança.
Antigamente corríamos com veículos 4×2 e, hoje em dia, em maravilhosos 4×4, muito mais seguros e eficientes. A evolução é uma constante, e as provas devem acompanhar a tecnologia implementando as planilhas eletrônicas e sempre buscando aperfeiçoar a cronometragem. Os avisos eletrônicos na planilha vinculados a wps com ajustes automáticos de metragem é um passo a ser dado no futuro do rally de regularidade. Este tipo de ação já é utilizada no Dakar e, a cada wp que passamos, temos o hodômetro do GPS ajustado automaticamente.

+R – Além de competir como navegador, você é o responsável técnico pelas provas da Mitsuibishi. Como o Lourival diretor de prova influencia o Lourival competidor e como o Lourival competidor influencia o Lourival diretor de prova?
LR – Tenho muito prazer em competir. Também tenho muito prazer em ser diretor de prova e colocar o meu jeito de ser nas provas. Exijo qualidade, capricho nos desenhos, nas medições, procuro locais bonitos e interessantes para os competidores, procuro montar prova interessante para cada tipo de competidor, desde o graduado mais experiente até o light que está vindo pela primeira vez.
O fato de continuar competindo me ajuda muito na organização, pois sempre estou atualizado em relação ao que os outros organizadores estão fazendo e também estou vivenciando de dentro da prova as dificuldades de seguir uma planilha, de manter a média, de fazer um laço, uma curva. Desse modo, quando vou determinar a que velocidade o competidor terá que andar, fica muito mais fácil de saber os limites.
Sempre estive acompanhando, testando e ajudando a desenvolver equipamentos e procedimentos no rally. E isso me ajuda a dar aula e também a criar uma situação numa prova para medir a habilidade de cada navegador na utilização das funções.
O Lourival competidor me ajuda a encarar as reclamações com mais atenção e mais paciência, pois lembro do meu inicio, quando não sabia como eram as coisas e tinha que perguntar para descobrir o que havia dado errado. O Lourival organizador me atrapalha um pouco nas competições quando fico avaliando o percurso, a média e o desenho em vez de me concentrar na navegação pura.
Considero que correr aprimora o meu lado organizador. Me tornei organizador quando percebi que as provas não tinham a mesma precisão que eu tinha como competidor.

+R – É mais difícil organizar um campeonato inteiro como o Mitsubishi Motorsports ou participar de uma prova complexa como o Dakar?
LR – As duas coisas são intensas e exigem dedicação e comprometimento. O Dakar dura somente 14, 15 dias. É o maior desafio em competição off-road do mundo e exige muito de seus participantes. Somos testados ao extremo, passando fome, frio, calor, sede, sono, dor, medo, estresse… Tem muita sensação boa também, como alegria, satisfação, euforia. A sensação de vencer o desafio, de completar a especial do dia, renova as energias para o dia seguinte. Dormimos pouco e sofremos muito. Mas é muito gratificante a superação. A energia que recebemos dos familiares, dos amigos e dos admiradores é intensa e nos ajuda a querer continuar. Penso sempre que nunca estou sozinho lá. Estou com todos que estão torcendo por mim.
Organizar o Mitsubishi Motorsports é maravilhoso, pois posso montar uma prova para pessoas que irão sentir um pouco da minha alegria de competir. Então, fazemos a montagem do prova com o maior capricho, sempre pensando no visual, nas pessoas dos locais onde passamos e nas sensações que os competidores terão ao passar pelo local. Considero a [categoria] Light um passeio e, para isso, procuro visual com pouca dificuldade, mas também tenho que integrar a prova com a dificuldade técnica [que exigem as categorias] graduado e turismo, que querem ser desafiados. Na montagem da prova, interagimos com muitas pessoas das fazendas e cidades onde passamos e temos a alegria de encontrar excelentes pessoas em todas as regiões. É um trabalho longo e de muita responsabilidade, com prazos curtos e datas imutáveis. Então, tem que dar certo. Afinal, teremos centenas de pessoas no evento, que vem para se divertir, e fazemos de tudo para que essa diversão seja também segura para todos.

 

Lourival no Dakar 2016. Foto: arquivo pessoal.
Lourival no Dakar 2016. Foto: arquivo pessoal.

+R – Você já competiu oito vezes no Rally Dakar e 14 Rally dos Sertões. Quais são os principais fatores que fizeram atingir essa marca no esporte?
LR – Eu já fui 15 vezes ao Sertões (14 como competidor) e nove vezes ao Dakar, tendo competido oito e completado seis. Tive excelentes resultados e continuo tendo. Isso me motiva a continuar. Gosto de ser desafiado. Quanto mais difícil, melhor.
Esta marca, com certeza, foi atingida pela minha dedicação, responsabilidade, paciência e persistência. Nunca desisti, nunca passei mal. A saúde sempre me ajudou. O nível de acertos é muito maior que o nível de erros. Sim, todos cometem erros, mas eu não me permito repetir um erro. Quando ele acontece, estudo maneiras de ele nunca mais acontecer. E isto, o reconhecimento do erro e a busca pela correção, leva à evolução.
Sempre fui uma pessoa ligada à tecnologia e procuro utilizar tudo o que é possível e legal para melhorar a performance, tanto que fui o primeiro e único navegador a usar planilha eletrônica no Sertões de 2013.
A seriedade do meu trabalho, a paciência, a contínua evolução – sempre aprendendo comigo e com os outros – e a dedicação além do horário – sem ter hora para parar até que esteja tudo afinado – são fatores que, com certeza, me ajudaram a participar de tantas provas.

+R – Você é referência para muitos competidores no Brasil hoje. Quem são as suas referências?
LR – Agradeço por ser referência. Tenho muitos ídolos, como Emerson Fittipaldi, pelo pioneirismo, Ayrton Senna, pelo perfeccionismo e pelas inúmeras vitórias e alegrias que nos deu, Ingo Hoffmann, pelo piloto e pelo ser humano espetacular, Nelson Piquet, pela criatividade e pilotagem. Isso falando só de automobilismo, mas tenho ídolos em outras áreas também. Procuro ser o mais correto possível e ensinar aos que querem aprender. Gosto de fazer bem feito, como o Senna fazia – não me canso de ver suas ultrapassagens.

+R – O que falta você conquistar na sua carreira? Quais são as suas expectativas como competidor para os próximos anos?
LR – Falta ser campeão no Dakar. Pretendo continuar tentando por mais uns 15 anos.

+R – E o Dakar de 2017?
LR – Ainda não tem nada certo. Existe a vontade, existe a possibilidade, a gente tá conversando, sempre estamos abertos a propostas. Espero que o Leandro [Torres, com quem competiu o Dakar em 2016] novamente se motive a ir pro Dakar, ele tem condições técnicas e financeiras de participar da prova, mas precisa ter motivação. Espero que ele encontre essa motivação e a gente possa ir lá se divertir e fazer bonito. Com certeza o veículo vai estar correndo muito mais do que correu neste ano.

Essa paixão acabou virando profissão pela dedicação. Deixei de ser analista de sistemas e me tornei organizador de rally.

+R – Que dicas você dá para quem está começando no esporte hoje?
LR – As dicas servem não só para o rally como para o trabalho e para a vida em geral. Eu acredito na dedicação, no estudo, na seriedade. Você tem que mostrar que sabe fazer e tem que fazer melhor que os outros para se sobressair. Procure aprender com os outros. É a forma mais rápida e barata, mesmo que tenha que pagar. Com a internet ficou muito fácil buscar informação. Seja especialista, pesquise o que os melhores fazem, faça curso com bons profissionais. Seja sério, alegre, divertido, otimista. Bom humor com moderação. Respeite o máximo possível os prazos – o tempo não espera. Aproveite as oportunidades – elas não voltam. Mostre-se capaz do que você quer fazer. Muitas vezes temos que dar amostras grátis.

+R – O que o rally representa na sua vida hoje?
LR – O rally começou como uma curiosidade: competir de carro. Nunca tinha andado na terra. Resolvi experimentar e virou paixão. Encaixou perfeitamente com o meu prazer de ser desafiado. Essa paixão acabou virando profissão pela dedicação. Deixei de ser analista de sistemas e me tornei organizador de rally. Tive que mudar de ramo e me dedicar exclusivamente para conseguir ser o organizador do Mitsubishi Motorsports. Felizmente, consigo intercalar as participações como competidor. Poderia estar em qualquer outro tipo de negócio. Estou no rally por estar feliz com o que faço, pelo retorno financeiro e pelo reconhecimento público. Já são 22 anos como organizador e 32 anos como competidor. Virou meu modo de vida.

 

Dando orientações aos competidores em uma das provas da Mitsubishi Motorsports. Foto: arquivo pessoal.
Dando orientações aos competidores em uma das provas da Mitsubishi Motorsports. Foto: arquivo pessoal.

+R – O que os competidores podem esperar para a temporada deste ano dos rallys da Mitsubishi?
LR – Já montamos [a etapa de] Tiradentes, que está bem mais difícil do que foram as outras provas na região. A prova conta com um reflorestamento e com áreas mais isoladas, com caminhos com pouco trânsito, então o pessoal vai ter condições de desenvolver uma boa velocidade e apanhar um pouquinho naquelas trilhas também.
O resto do campeonato vai ser desenvolvido baseado no que já foi feito em outros anos. Depois de Tiradentes, o campeonato segue para Gravatá – e essa prova nós já começamos a montar também. No Sudeste, em São José do Rio Preto, a prova ocorre basicamente em canavial. A ideia é seguir o mesmo estilo de prova que já aconteceu lá, que é bem legal. Tem piso arenoso, curvas que dão pra fazer escorregando. Já as outras etapas devem ter mais ou menos o mesmo nível de dificuldade das provas do ano passado.

+R – O que você achou do portal +Rally?
LR – A ideia é muito bacana. O portal consegue proporcionar um contato maior com os competidores e você consegue concentrar informações de interesse de todo mundo da área. É uma excelente iniciativa que tem tudo pra dar certo. Vamos apoiar, seguir e acompanhar.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade do autor da mensagem e não expressam a opinião do Portal +Rally.

  • Marcia -

    Parabensss!! Muito boa a entrevista com o mestre Lourival . Lourival sempre demonstrando garra e prazer no que faz.

  • Fernando Assis Dall'Orsoletta -

    Que entrevista!
    Parabéns, e que venham outras iguais a esta.

  • Guga Valente -

    Muito bacana!!! Parabéns pela entrevista e pela escolha do entrevistado!!!

  • Belén Macedo -

    Mais uma matéria impecável!
    Amei!!! Más também não poderia ser diferente com o Mestre do Rally Brasileiro.
    Lourival estaremos torcendo por você por muito mais do que 15 anos!!!! Sei que vc chegará lá! !!

  • Murilo -

    Parabéns, Prof. Lourival é realmente a referencia em rally, pessoal simples, dedicada e com foco. Sou fã desse cabra.

  • Alvaro -

    Lourival sua dedicação e perseverança lhe fez uma pessoa a frente do seu tempo. Parabéns amigo e que venha mais 15 é mais 15 anos fazendo
    O que gosta.

  • Fernando Carvalho -

    Lourival Roldan é grande amigo muito profissional e responsavel com grande experiencia ao longo de todos estes anos . tive o previlegio de o conhecer e partilhar alguns rally em Portugal como assistente dele . tenho muito orgulho em ser amigo de Lourival Roldan… todos os amigos que ele tem em Portugal , lhe espera novamente no rally em Portalegre, seria uma festa enorme a presença dele …

    • Fernando Carvalho -

      esperamos pelo mestre do rally em Porugal Lourival Roldan